Durante boa parte do século 20, a criança brasileira tinha que ler a revista
O Tico-tico e os pais incentivavam esta leitura porque, além de divertir,
instruía a garotada. Os principais escritores, artistas e intelectuais
brasileiros, como Coelho Neto, Bastos Tigre, J. Carlos e Luiz Sá escreviam ou
desenhavam suas histórias. Gente como Carlos Drummond de Andrade, Ana Maria
Machado e Lygia Fagundes Teles se encantou e aprendeu a pensar e sonhar lendo
o semanário, um dos primeiros dedicado ao público infantil no Brasil.Até Rui
Barbosa era seu leitor. Monteiro Lobato era entusiasta.
A revista completou 100 anos em 2005 e a data foi comemorada com uma exposição
na Biblioteca Nacional em que se reuniram exemplares históricos, desenhos
originais e reproduções de páginas e de personagens como o trio Reco-Reco,
Bolão e Azeitona, que encantou gerações de brasileiros. Mas isso era pouco e
agora o Instituto Antares (IAN) lança o Almanaque O Tico-tico, que
comemora este centenário e conta a história dessa revista pioneira. O IAN
detém a maior coleção desta revista:1.500 exemplares, todos digitalizados, e
este acervo foi a base da pesquisa para o livro. O projeto tem o patrocínio da
Esso Brasileira de Petróleo.
O lançamento será na Casa de Laura Alvin, no dia 15 de março, dentro do 17º
Salão Carioca de Humor. Não é mera coincidência, pois Laura, uma agitadora
cultural carioca da primeira metade do século passado, era neta de Ângelo
Agostini, um dos fundadores de O Tico-tico, Uma das seis exposições do
Salão abrange a obra de Agostini em 50 anos de atuação no Brasil. Ele nasceu
na Itália e chegou aqui em 1859 para envolver-se com arte e política. Em 1904,
publicou em O Malho uma das primeiras histórias em quadrinhos
brasileiras, Por Causa de um Cachorro. Houve uma enorme discussão: o
público infantil devia ter uma revista só para si? Agostini acreditava que sim
e desenhou o primeiro logotipo de O Tico-tico, além de ter novas
histórias, como a novela Pai João, um libelo abolicionista.
Agostini morreu em 1910, mas sua marca permaneceu intacta na capa da revista
até quase a década de 20.
O Almanaque O Tico-tico tem a curadoria do acadêmico e secretário de
Cultura do Estado do Rio de Janeiro, Arnaldo Niskier, para quem a revista teve
a mesma importância das obras de Monteiro Lobato na formação da identidade
brasileira. “Ambos lutaram pela valorização e reconhecimento de uma produção
nacional”, diz Niskier na apresentação do livro, que tem ainda textos de
Antônio Olinto (também imortal e leitor de O Tico-tico na
infância), Iesa Rodrigues, Mauro Salles, Moacy Cirne e Zita de Paula Rosa.
Eles explicam o contexto do público brasileiro, contam histórias da revista e
como foi criada (copiando o semanário francês La Semaine de
Suzette, mas tentando identificar-se com seu público brasileiro). Sem
saudosismo, falam de um tempo em que as crianças aprendiam a sonhar e pensar
com personagens fascinantes como Kaximbow, Zé Macaco, Faustina, Chico Preguiça
e Lamparina.
O Almanaque O Tico-tico tem 150 páginas com muitas ilustrações
publicadas nos 53 anos em que a revista circulou, entre 1905 e 1958. Impresso
em papel couché, em formato 21 cm x 27 cm, é o resumo de um período fértil da
cultura brasileira e de como se formava o pensamento nacional no século
passado. Como adverte Niskier, “apesar de ter interrompido sua trajetória em
1958, O Tico-Tico influenciou as gerações seguintes, sendo um dos
responsáveis pelo crescimento da literatura infanto-juvenil brasileira”.
Almanaque O Tico-tico Edição: Instituto Antares
Lançamento: 15 de março de 2006 Casa de Cultura Laura Alvin
- 19:00 h Avenida Vieira Souto, 176 – Ipanema.
Contatos: Instituto Antares Telefones 2523-2064/2267-2788
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